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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Museu da Corrupção

Desculpem se o link não é porto-alegrense, mas a falcatrua tem todos os sotaques brasileiros, incluindo o gaúcho. E deu origem ao Museu da Corrupção - é ou não é curioso? Lançado no último dia 22 de abril, quando comemoramos 509 anos, o espaço virtual mostra os escândalos mais famosos do país, desde a década de 70.

Inspirado na pirâmide do Louvre, o projeto é do arquiteto mineiro Rodrigo de Araújo Lima e tem vários ambientes. Se você entrar na Galeria Edemar Cid Ferreira, verá obras de arte que pertenciam ao banqueiro acusado de surrupiar R$ 9,9 bilhões do Banco Santos. Batizada de Zia Ângela, a pizzaria homenageia a deputada que, em 2006, comemorou a absolvição do colega corrupto dançando no plenário da Câmara. Na lojinha, além de souvenirs, há cuecas para esconder dólares, camisas de colarinho branco (leve 4, pague 10), passagens aéreas de parlamentares, telefones grampeados e outras traquitanas altamente suspeitas. Feliz ou infelizmente, os objetos não estão à venda.






MUSEU DA CORRUPÇÃO

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

O afinador de pianos

Jamais desconfiei que o interior de um piano dava pistas da sua história. Pura ignorância minha, remediada quando visitei a casa-oficina de Pedro Bichels. Abrindo a tampa do instrumento, a gente encontra assinaturas dos afinadores que passaram por aquelas teclas. Ao lado de cada nome, consta a data da regulagem.



“Pego pianos que meu avô afinou, às vezes no mesmo dia, cinqüenta anos atrás”, me disse Adriano Bichels, herdeiro do ofício que está na família desde o início do século passado. Assim como o pai, ele atravessa o Rio Grande do Sul com seu arsenal discreto. Munido de diapasão, chaves de pressão e varetas para isolar as cordas, aproxima o ouvido do som. Ouve apenas o que quer. E coloca todas as notas no lugar.

Enquanto morava em Porto Alegre, passei pelo local muitas vezes. Nada diz que ali, numa residência, há mais pianos do que móveis. Boa parte das peças chega para restauração. Outro tanto integra o acervo alugado por shopping centers, hospitais, escolas e aprendizes. Zelosos que são, os Bichels não fazem locação para bares: “as pessoas bebem, fumam, deixam [o piano] aberto e cai cinza, copo, tudo”.

Mesmo que você só saiba dedilhar o dó-ré-mi, visite o site da empresa e leia, ouvindo música clássica, a história do dia em que Pedro foi chamado para resolver o mistério do piano fantasma – por que, ó céus, as teclas tocavam sozinhas, ao redor da meia-noite? Sem esperar pelas doze badaladas, o afinador deu a receita certeira: coloque ratoeiras ao lado.

PEDRO BICHELS PIANOS
Rua Passo da Pátria, 342, Bela Vista
(51) 3332.3240 e 9122.7957
com hora marcada

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Não é nada do que você está pensando

Tire as crianças do computador. Diga para os pudicos darem uma volta. Não tenho como postar sobre o jogo de cartas que pouquíssima gente conhece sem escrever um palavrão. Mesmo que a ortografia seja antiguinha e troque o “f” por “ph”.

Até onde eu sei, em Porto Alegre, só um grupo domina o Phoda-c. Ou, melhor, uma família. Distribuídos principalmente entre a capital e Santa Maria, os Gaiger criaram até um scoresheet para organizar a jogatina – a versão “ferre-se” só existe porque uma das integrantes do clã foi jogar num clube chiquetoso, mas vamos combinar que não tem metade da graça.


“Morávamos nos Estados Unidos, em 1984, quando meu filho, que estudava em Piracicaba, levou o jogo pra lá”, me contou Clóvis Silveira, casado com Therezinha Gaiger Silveira. É ela quem aparece aí embaixo como campeã nacional de 1997, sem que nunca tenha havido tal competição. Tanto o título quanto a planilha de pontuação foram inventados por um amigo americano do casal.


Sobre a origem do jogo, nem o filho de Clóvis sabe falar. “É uma variação do King, que é uma variação do Bridge”, acredita Fernando, atualmente morando em Brasília.

Se não fosse improdutivo, eu descreveria as regras por aqui. Para não faltar com a informação, adianto que:

a) O jogo funciona na base da aposta.
b) Mais importante do que ter cartas vencedoras, é cumprir a promessa.
c) O número total de apostas nunca pode ser igual ao número de rodadas. Em outras palavras: alguém, necessariamente, vai se dar mal.

Entendeu porque o jogo se chama Phoda-c?

Já tinha ouvido falar sobre ele?

Conhece outro jogo incomum? Se a resposta for sim, conte pra nós, por favor.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Emilio Saucedo: conserte sua gaita de boca com um artista da Rádio Nacional

Emilio Damasceno Saucedo merece uma página inteira de jornal. É o tipo de gente que, nos meus tempos de revista, renderia perfil e portrait – coisa inúmeras vezes melhor do que a foto aí embaixo, tirada com minha máquina capenga. Desculpem, portanto, o post deveras grande.


Emilio com a gaita que pertencia ao irmão

Cheguei na casa do homem por causa da Lia Amaral, que me ouviu no Gaúcha Entrevista e resolveu indicar o serviço. Era para conversarmos sobre conserto de gaitas de boca, ofício que, segundo o próprio Emilio, é uma raridade: “Se tiver três ou quatro no Brasil, é muito”.

Se o seu instrumento estiver desafinado, com a palheta rachada, trancando as notas ou oxidado, vá lá. E se gostar de ouvir histórias, sente-se nas cadeiras de plástico que ele mesmo, gentil e bem-humorado, forra com espuma - “aqui em casa, bunda de amigo é tratada com todo carinho”.

No final de década de 40, em plena Era do Rádio, Emílio, o irmão Ênio e Mario Souza formaram o Trio Harmônico, só com gaitas de boca. Depois de um ano tocando na Rádio Farroupilha, eles foram descobertos por ninguém mais, ninguém menos do que Benedito Lacerda, o flautista que formou, junto com Pixinguinha, a dupla mais importante da história do choro. Foi Benê quem disse: “vocês vão gravar um disco”.



Cha, Cha, Cha, de 1961: ouça aqui uma faixa
do disco gravado com Jehovah da Gaita, que
substituiu Mario Souza no Trio Harmônico


E lá se foram eles para a Rádio Nacional, ícone do dial brasileiro. Foi quando conheceram Cauê Filho, conhecidíssimo por interpretar o Moleque Saci, da rádio-novela Jerônimo, o Herói do Sertão. Não havia melhor credencial para chegar ao Teatro Recreio e embalar os passos de uma das vedetes mais famosas do país: Virginia Lane. Eles só não fizeram mais sucesso porque Ênio sumiu do mapa de repente. Em Porto Alegre, nem a família, nem dona Ely (mulher que o acompanha até hoje e que continua sendo chamada de namorada) sabiam que ele estava internado num hospital, tuberculoso, onde ficaria incógnito por três anos.

Quer mais? Para ganhar a vida longe dos palcos, Emílio trabalhou em grandes agências de propaganda e recebeu a incumbência de criar um personagem para a marca Liquigás. Tanto o nome quanto o traço do velho Liquinho (leia-se mini-botijão de gás, já que o Google não achou nenhuma imagem do próprio) são obra do artista.

E eu pensando que ele só (?) consertava gaitas.

EMILIO DAMASCENO SAUCEDO
Rua André Arjonas Guillen, 16, Passo D´Areia
(51) 3737.1524 e 8133.5388
com hora marcada